segunda-feira, 9 de dezembro de 2019

Saudade de Tereza



Eu comecei com Tereza. Isso há muitos anos. Eu queria outra coisa. Eu me interessava por carroças que andavam pelas ruas de asfalto. Hoje, aposto que elas não existam mais. Mas há muitos anos ainda andavam por lá. Eu saí andando e tive esse encontro não marcado com Teresa. Foi bem nervoso. Eu estava com receio de procurar, de encontrar, disso me matar. Mas eu já tinha encontrado quando dei os passos lá dentro. Não era o que eu queria, mas aquilo que eu mais temia e precisava. Tereza. Essa história ela me deu e eu nunca retribuí.

Fiz perguntas erradas com medo de ouvir o certo. Fiz rodeios, fui tonta, me fiz de fraca, mas ela seria sempre muito mais porque ela era de verdade. Limpava túmulo de morto. Não escondia seu barraco, nao escondia sua história, sua família e nem seu trabalho. Mesmo com a sujeira na porta, mesmo com a estranha vizinhanca, mesmo sem banho, ela não usava artifícios que eu pudesse ver.

Ela me emprestou sua coragem, ela entregou a vergonha que tinha vontade de falar. Ela me deu tudo que tinha e eu sou agradecida. Ela me deu aquilo que eu exatamente precisava. Simplicidade. Eu não tenho. Sou infelizmente sofisticada e enganada. E o que ela deu, coloquei numa folha e guardei com vergonha.

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