sábado, 23 de novembro de 2019

Quem é você?



Essa era a pergunta que ela mais protestava em responder. Uma extrema ousadia. Isso não era da conta de ninguém. E ela começou a formular respostas. Escrevia-as mentalmente e ainda argumentava muito para se tornar convincente. Perdia muito tempo. Ela era dissimulada. E, até que, em muitas ocasiões  conseguia com maestria  burlar a pergunta. Ela tinha charme.

Mas quem é voce mesmo? Ela dava um jeito com seu sotaque naqueles outros metidos. Eles, aqueles todos, estranhos, gostavam do seu jeito. Para eles estava bom. Ela era só uma estrangeira charmosa, dissimulada e convincente. Isso bastava. 

E ela percebia que quanto mais a perguntavam sobre ela, mais ela revirava os bolsos e bolsas a procura de quem ela era. Era um desespero só seu. Lá dentro encontrava algumas identidades forjadas que usava para se disfarçar, nao dos outros estranhos, mas de si mesmo. E de volta aos mil metros quadrados de solidão, via que ia se tornando transparente.

Ela sofria.  Os seus dois mais sinceros espelhos mostravam sua falta de cor com gritos, choros e rebeldia. Era os sinais que ela não sabia que existiam. Com muito barulho e chiado, começou a entender que sentia falta de si. Falta da sua história, das lembranças, da infância. Falta das saudades.
Isso talvez não fosse a resposta para sua pergunta, mas ela sabia que, matando a saudade, ela poderia se aproximar da calma para conseguir se enxergar. Um espelho d´água ela precisava. E só a partir daí, ela poderia fazer as pazes com ela do futuro. Ela poderia saber quem ela era ou quem havia se tornado. Era uma questão de se enxergar e não de identidade.

Ela tinha entendido que para se ver, era preciso ver o passado, ver o que havia abandonado, o que havia silenciado, o que nunca tinha se permitido ver. As coisas não faladas e não feitas eram importantes. No seu silêncio e na sua própria repressão continham segredos, que precisavam ser revelados. Eram respostas do medo. Essa era a única verdade. Era a única verdade que ela precisava para descobrir quem ela era.

Era preciso quebrar com o silêncio. Eu pedi para ela seguir mesmo que isso significasse errar. Era importante que ela confiasse de uma vez por todas em mim. 

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