sexta-feira, 22 de novembro de 2019

Palco clandestino


Contracenava. Ela não podia parar. Dama dos diálogos. Eles eram impecáveis. Ela preenchia todas as linhas e dominava a cena. E mesmo que, em instantes, estivesse perdendo o controle, tinha sempre uma saída nem tanto convencional e diplomática. Tinha sistema, tinha ardência, era uma garrafa cheia de vinho. Tinha algo dentro dela, forte. Mas isso ficava ali, naquela superficie vaga, naquela superficie do ar. Isso a enfraquecia porque nunca ganhava nome, cor, profundidade e letras. Só dava lugar ao vazio. Era ar.
Ela desacreditava várias vezes. Atriz que nunca tinha subido no palco, que contracenava mesmo sozinha, o fazia para ouvir de fundo a ovação oca e roca. Seu teatro íntimo virava ruínas e ela partia. Ia lavar a louça. Se distraia. Graças a Deus.

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