Refazendo a rota de fuga, seu passatempo preferido, ela
lembrou dos dias de chegada. Dos dias de descoberta, do novo, do estranho, do
desconhecido, que era seu amigo mais confiável. Essas histórias de chegada eram
sempre mais fáceis. A alma dela não tinha espaço para o medo. Era só tesão,
sede e fome. Era muita curiosidade. Ela estava preenchida. A medida que se saciava
do desconhecido ele ia ficando íntimo. Era um perigo perder-se nele. Ela sabia
e bebia.
Um dia acabou. Ela quase morreu de fome. Observou a chave
sob a mesa. Ela só enxergava a chave. Ela só enxergava a fuga. Como sair dali,
daquele ranço.
Era a bela adormecida. Não estava morta, mas não vivia. Era esse lugar do
viver e não-viver.
Ela sentia que não sentia. Ela tinha saudade de sentir. Ela precisava
fugir, mas ficou. Nao era uma questao mais de para onde ir. Era hora de se achar em
si.
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