Acho que eu nem fui muito longe. Andava no sol, no frio, mas
andava. Dobrei a esquina e, de repente, saltou do nada. Não era feia, mas
trazia consigo tudo que eu evitava. Era a figura tão conhecida do medo, da
insegurança,
da dúvida, das perguntas e colocações impróprias. Na mesma hora eu
retrai. Meu rosto enrijeceu, meu peito travou, meu estômago doeu. Eu não
conseguia nem mais olhar no rosto da criatura. Era muito desconforto. Mas ela
ficou ali e eu senti tudo. Eu prestei atenção em tudo. Os movimentos que
ela fazia e o que tocava em mim. Eu via nela as máscaras, os forjamentos, as
falhas. Era ruim e ao mesmo tempo tão particular e íntima. Era um encontro
desconfortável.
Eu não queria. Tenho minhas táticas. Evito, mas ela vem mesmo
assim. E vem pra me mostrar que eu ainda tenho aquela parte. Que ainda está
aqui, que eu não posso mascarar, como ela mesmo faz consigo.
É triste, mas é verdade. Olhar no rosto do medo, da dúvida e
da insegurança
me paralisa. Me faz desacreditar. Eu, dessa vez, nem a desafiei, não
briguei. Eu deixei estar. Ela estava fora, mas ao mesmo tempo dentro de mim. Eu
vi isso. E comecei a acolher meu próprio medo. Tive várias chances. Fui e
voltei várias vezes. Disse e disdisse. Gritei e apaziguei. Dei atenção.
Foi duro, mas eu me vi. Vi que eu também sou essa, mas também a outra. Ela está
renascendo. E eu vou acreditar nela.
Tudo isso é pra dizer que, sim, eu te vejo. Te vejo dentro
de mim. Te vejo com medo, com dor, com dúvida e com inseguranca. E não.
Nao vou mais desconsiderar a outra. Ela também é válida porque ela se movimenta
e não
tem medo. Eu vou te dar mais atenção. Um dia tu poderás partir porque
aqui não
vais encontrar mais casa. Por ora, até mais. Estou atenta.
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