Se o dia nasce todo dia de novo e de novo. Se todo dia o
relógio bate às 12:00, e se a gente toma café, almoca e janta todo dia, todo
dia é um dia. Só que nao vai dá pra fazer a mesma coisa que ontem hoje, porque
hoje nao é ontem. Ontem estava chovendo e hoje tem sol. Ontem uma crianca
estava brincando hoje ela está doente. Ontem eu era jornalista, hoje eu sou
mae. Ontem eu morava lá e hoje eu moro cá. Ontem eu comi ovo e hoje acabou. Mesmo
que eu quisesse repetir, nao dá. A nuvem de ontem já choveu, hoje vem outra com
outra intensidade, talvez mais, talvez menos. O sol do mes passado brilhava
mais e sol de hoje passa no horizonte por algumas horas e a gente vive hoje
mais no escuro do que ontem.
A gente recomeca o tempo todo, todo dia.
Em 2006, com 24 anos, eu tinha uma ideia, uma vontade, uma
necessidade. Eu precisava movimentar meu desejo e consegui bem pouquinho. Dei passinhos
de formiguinha. As vésperas de 2020, de novo com uma ideia, talvez com o mesmo
desejo, com a mesma vontade e com uma necessidade tao intensa, (talvez) eu
recomece.
Meu desejo. É o meu desejo, e ele é latente. E nesses anos, como nos anteriores,
foi bem difícil dar atencao a ele. Ele chega e eu mando embora. Eu nao acho que
ele é de verdade só porque vem de mim. Que é um lugar desacreditado.
Só que, depois desse tempo todo, eu sou obrigada a aprender a
me entregar. Eu vou ter que aprender a escutá-lo. Eu preciso me render. Eu sou
obrigada a entregar aqui as minhas resistencias e meus medos. Medo de nao
agradar, medo de machucar, medo de desapontar, medo de errar, medo de rirem,
medo de ser. Medo de se ver muito imperfeita, muito frágil, muito quebrável.
Os desejos sao calados por mim. Auto-Repressao. Eu já fiquei
surda, cega e muda de mim. Cálice. Eu já nao quis falar. Nadinha. Implodi e quebrei.
A gente recomeca o tempo todo, todo dia. Se quebrar, quebrou. Amanha é outro dia.

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