quinta-feira, 28 de novembro de 2019

Eco


Acho que eu nem fui muito longe. Andava no sol, no frio, mas andava. Dobrei a esquina e, de repente, saltou do nada. Não era feia, mas trazia consigo tudo que eu evitava. Era a figura tão conhecida do medo, da insegurança, da dúvida, das perguntas e colocações impróprias. Na mesma hora eu retrai. Meu rosto enrijeceu, meu peito travou, meu estômago doeu. Eu não conseguia nem mais olhar no rosto da criatura. Era muito desconforto. Mas ela ficou ali e eu senti tudo. Eu prestei atenção em tudo. Os movimentos que ela fazia e o que tocava em mim. Eu via nela as máscaras, os forjamentos, as falhas. Era ruim e ao mesmo tempo tão particular e íntima. Era um encontro desconfortável.

Eu não queria. Tenho minhas táticas. Evito, mas ela vem mesmo assim. E vem pra me mostrar que eu ainda tenho aquela parte. Que ainda está aqui, que eu não posso mascarar, como ela mesmo faz consigo.

É triste, mas é verdade. Olhar no rosto do medo, da dúvida e da insegurança me paralisa. Me faz desacreditar. Eu, dessa vez, nem a desafiei, não briguei. Eu deixei estar. Ela estava fora, mas ao mesmo tempo dentro de mim. Eu vi isso. E comecei a acolher meu próprio medo. Tive várias chances. Fui e voltei várias vezes. Disse e disdisse. Gritei e apaziguei. Dei atenção. Foi duro, mas eu me vi. Vi que eu também sou essa, mas também a outra. Ela está renascendo. E eu vou acreditar nela.

Tudo isso é pra dizer que, sim, eu te vejo. Te vejo dentro de mim. Te vejo com medo, com dor, com dúvida e com inseguranca. E não. Nao vou mais desconsiderar a outra. Ela também é válida porque ela se movimenta e não tem medo. Eu vou te dar mais atenção. Um dia tu poderás partir porque aqui não vais encontrar mais casa. Por ora, até mais. Estou atenta.

Coração vestido de amarelo


Eu te entendo e te vejo muito insatisfeita. A cara enterrada no sofá. O vestido de princesa não te veste. Não sacia, não serve. Eu sei. Eu tô fazendo a mesma coisa de novo. Desculpa, eu não queria. Tu sentes a minha raiva,  e eu sei disso também. Mas não esquece que eu estou tentando ir lá naquela cena. Resgatar a confianca de ser quem se é. Entrar no carro, de maiô e confiar na passageira do lado, que canta, dança, fecha os olhos, se sacode e ri igual a mim. Era minha amiga, talvez meu retrato, mas estava ali dando a confiança que eu precisava para ser quem se é. E o coração se encheu de amarelo. Era eu. Vou te resgatar. Pode durar mais tempo, pode ser que eu te engane de novo, pode ser tanto, mas estou aqui e te vejo. Confia. Eu estou aqui.


sábado, 23 de novembro de 2019

Quem é você?



Essa era a pergunta que ela mais protestava em responder. Uma extrema ousadia. Isso não era da conta de ninguém. E ela começou a formular respostas. Escrevia-as mentalmente e ainda argumentava muito para se tornar convincente. Perdia muito tempo. Ela era dissimulada. E, até que, em muitas ocasiões  conseguia com maestria  burlar a pergunta. Ela tinha charme.

Mas quem é voce mesmo? Ela dava um jeito com seu sotaque naqueles outros metidos. Eles, aqueles todos, estranhos, gostavam do seu jeito. Para eles estava bom. Ela era só uma estrangeira charmosa, dissimulada e convincente. Isso bastava. 

E ela percebia que quanto mais a perguntavam sobre ela, mais ela revirava os bolsos e bolsas a procura de quem ela era. Era um desespero só seu. Lá dentro encontrava algumas identidades forjadas que usava para se disfarçar, nao dos outros estranhos, mas de si mesmo. E de volta aos mil metros quadrados de solidão, via que ia se tornando transparente.

Ela sofria.  Os seus dois mais sinceros espelhos mostravam sua falta de cor com gritos, choros e rebeldia. Era os sinais que ela não sabia que existiam. Com muito barulho e chiado, começou a entender que sentia falta de si. Falta da sua história, das lembranças, da infância. Falta das saudades.
Isso talvez não fosse a resposta para sua pergunta, mas ela sabia que, matando a saudade, ela poderia se aproximar da calma para conseguir se enxergar. Um espelho d´água ela precisava. E só a partir daí, ela poderia fazer as pazes com ela do futuro. Ela poderia saber quem ela era ou quem havia se tornado. Era uma questão de se enxergar e não de identidade.

Ela tinha entendido que para se ver, era preciso ver o passado, ver o que havia abandonado, o que havia silenciado, o que nunca tinha se permitido ver. As coisas não faladas e não feitas eram importantes. No seu silêncio e na sua própria repressão continham segredos, que precisavam ser revelados. Eram respostas do medo. Essa era a única verdade. Era a única verdade que ela precisava para descobrir quem ela era.

Era preciso quebrar com o silêncio. Eu pedi para ela seguir mesmo que isso significasse errar. Era importante que ela confiasse de uma vez por todas em mim. 

sexta-feira, 22 de novembro de 2019

Palco clandestino


Contracenava. Ela não podia parar. Dama dos diálogos. Eles eram impecáveis. Ela preenchia todas as linhas e dominava a cena. E mesmo que, em instantes, estivesse perdendo o controle, tinha sempre uma saída nem tanto convencional e diplomática. Tinha sistema, tinha ardência, era uma garrafa cheia de vinho. Tinha algo dentro dela, forte. Mas isso ficava ali, naquela superficie vaga, naquela superficie do ar. Isso a enfraquecia porque nunca ganhava nome, cor, profundidade e letras. Só dava lugar ao vazio. Era ar.
Ela desacreditava várias vezes. Atriz que nunca tinha subido no palco, que contracenava mesmo sozinha, o fazia para ouvir de fundo a ovação oca e roca. Seu teatro íntimo virava ruínas e ela partia. Ia lavar a louça. Se distraia. Graças a Deus.

quinta-feira, 21 de novembro de 2019

Refazendo o plano

Refazendo a rota de fuga, seu passatempo preferido, ela lembrou dos dias de chegada. Dos dias de descoberta, do novo, do estranho, do desconhecido, que era seu amigo mais confiável. Essas histórias de chegada eram sempre mais fáceis. A alma dela não tinha espaço para o medo. Era só tesão, sede e fome. Era muita curiosidade. Ela estava preenchida. A medida que se saciava do desconhecido ele ia ficando íntimo. Era um perigo perder-se nele. Ela sabia e bebia.

Um dia acabou. Ela quase morreu de fome. Observou a chave sob a mesa. Ela só enxergava a chave. Ela só enxergava a fuga. Como sair dali, daquele ranço. Era a bela adormecida. Não estava morta, mas não vivia. Era esse lugar do viver e não-viver. Ela sentia que não sentia. Ela tinha saudade de sentir. Ela precisava fugir, mas ficou. Nao era uma questao mais de para onde ir. Era hora de se achar em si.


Desejos frágeis




Se o dia nasce todo dia de novo e de novo. Se todo dia o relógio bate às 12:00, e se a gente toma café, almoca e janta todo dia, todo dia é um dia. Só que nao vai dá pra fazer a mesma coisa que ontem hoje, porque hoje nao é ontem. Ontem estava chovendo e hoje tem sol. Ontem uma crianca estava brincando hoje ela está doente. Ontem eu era jornalista, hoje eu sou mae. Ontem eu morava lá e hoje eu moro cá. Ontem eu comi ovo e hoje acabou. Mesmo que eu quisesse repetir, nao dá. A nuvem de ontem já choveu, hoje vem outra com outra intensidade, talvez mais, talvez menos. O sol do mes passado brilhava mais e sol de hoje passa no horizonte por algumas horas e a gente vive hoje mais no escuro do que ontem.  

A gente recomeca o tempo todo, todo dia.

Em 2006, com 24 anos, eu tinha uma ideia, uma vontade, uma necessidade. Eu precisava movimentar meu desejo e consegui bem pouquinho. Dei passinhos de formiguinha. As vésperas de 2020, de novo com uma ideia, talvez com o mesmo desejo, com a mesma vontade e com uma necessidade tao intensa, (talvez) eu recomece.
Meu desejo. É o meu desejo, e ele  é latente. E nesses anos, como nos anteriores, foi bem difícil dar atencao a ele. Ele chega e eu mando embora. Eu nao acho que ele é de verdade só porque vem de mim. Que é um lugar desacreditado.

Só que, depois desse tempo todo, eu sou obrigada a aprender a me entregar. Eu vou ter que aprender a escutá-lo. Eu preciso me render. Eu sou obrigada a entregar aqui as minhas resistencias e meus medos. Medo de nao agradar, medo de machucar, medo de desapontar, medo de errar, medo de rirem, medo de ser. Medo de se ver muito imperfeita, muito frágil, muito quebrável.
Os desejos sao calados por mim. Auto-Repressao. Eu já fiquei surda, cega e muda de mim. Cálice. Eu já nao quis falar. Nadinha. Implodi e quebrei.

A gente recomeca o tempo todo, todo dia. Se quebrar, quebrou. Amanha é outro dia.
  

Saudade de Tereza

Eu comecei com Tereza. Isso há muitos anos. Eu queria outra coisa. Eu me interessava por carroças que andavam pelas ruas de asfalto. Hoj...