quarta-feira, 2 de julho de 2008

Cultura manezês

a coisa mais linda dessa vida é vê um lanço de tainha. todo mundo na praia se reúne, puxa a rede, e guerreia com peixe. é lindo de se vê. adispois, fazê uma tainha fritinha, ou na brasa, credo, pôco bom.


Uma das coisas mais lindas de Floripa acontece nessa época.
A pesca da tainha dá de 10x0 no famoso reveillon de Jurerê "Internacional", na procissão do Nosso Senhor dos Passos, e ainda é melhor que o Bloco dos Sujos na Praça XV, no sábado de carnaval.
A época de tainha é uma festa. Festa na casa de todo manezinho. Até daqueles que não moram lá.
Depois do veranico de maio é que elas aparecem. Acho que as tainhas vêm com frio e o vento sul, mas encostam na praia com o vento norte. Quando chega essa época os pescadores já fazem a "vigília". Sempre fica um olheiro no alto do morro com a atenção toda voltada ao mar.
Hoje eu vi na matéria do Ricardo Won Dorf, da RBS TV, que os pescadores deram uma modernizada, agora eles usam rádio para se comunicar com o pessoal que está na praia. Antes, o sinal de que tinha peixe na água era com uma toalha, camiseta ou boné.
Esse caras são demais. Gente humilde, que canta e assovia pra falar. Fala arrastadinho como dizem.
O pescador quando não te conhece, não te dá muita bola, é seco e direto. O pessoal de fora da ilha acha que manezinho é grosso. Ai ai...

De uns tempos pra cá, em Floripa, tem bem pouco pescador tirando renda da pesca. Muitos já se aposentaram ou então foram trabalhar na cidade como porteiro e zelador de prédio.
No meu condôminio, o vigia da noite, quando não estava fazendo uma rede, consertava as tarrafas do meu pai. Todos eles eram pescadores. Todos super queridos.

Voltando: As tainhas. Então, essa é a época de elas aparecem por lá. Quando encrespa o mar é porque tem peixe. A raça que está na areia bota o barco na água, coloca a rede e arrasta depois. Isso pode levar quase o dia todo. Esse arrastão é fantástico.
Nos ingleses eu puxei muita rede. E não é história de pescador, não. Eu e meu pai abríamos a rede dele atrás da rede dos pescadores. Os peixes menores escapavam da rede maior e a gente pegava um monte de tanhotinha. Eu morria de coceira por causa da escama do peixe que vai saindo na água. Á noite no fogareiro da cobertura era só peixe frito com farinha. ú delícia.

Eu vi alguns vídeos no youtube sobre essa época em Floripa. O pessoal DASANTIGAS fez um vídeozinho bem lindo com o Rancho Amor à Ilha e o Ademir Damasco editou um outro vídeo com um espirito bastante "florianópolis". Só pra matar a saudade.



Na descrição de Sérgio da Costa Ramos:
(Diário Catarinense de 26 de abril de 2008)

Na Barra da Lagoa, nos Ingleses ou na Armação, antigas "guaritas de colônias pesqueiras", os olheiros estão a postos, a pele curtida de sol, guimba de palheiro pendendo do canto da boca, a aba do boné de "propaganda eleitoral" protegendo a cabeça grisalha. E, por arremate, um sorriso "1001" - o janelão sem dentes realçando a moldura das presas...

Além do azul e do verde, há, é claro, o cinza-prateado dos cardumes. Nas pranchetas de Othon DEça e Virgílio Várzea, as redes estão lançadas, no Campeche, no Santinho, na Lagoinha. De repente, o mar azul se encrespa, fica todo enrugado, os cardumes riscando o seu rastro nervoso no espelho dágua:

- Tainha! - berra o olheiro.

É a senha para que as velhas rendeiras amolem suas facas de donas de casa, seus ferros de escamar.

E que, à noite, os pescadores acendam o fogo para escalar as tainhas e suas prendas ovadas, elogiando o produto para as cozinheiras:

- "Ô sinhora!", é tainha fresca, tainha de corso, tainha ovada - "ô sinhora!".

Sergio da Costa Ramos é escritor, jornalista e titular da Acadêmia Catarinense de Letras. Nasceu em Florianópolis em 1947.

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