
O quarto está escuro. O sol já se pôs e o vento fresco acabou de cair.
Ela já fez o almoço, inventou uma receita e tomou coca-cola.
Ontem viajou, hoje escreveu.
O dia tinha acabado de passar, era mais um que ela improvisava com intervalo.
Quando abriu os olhos mais cedo, o quarto estava quente e o lençol bagunçado. O gosto era bom. Acordou descansada.
Sem roupas ergueu-se e saiu da cama. Pôs os pés no chão e puxou o roupão. Quanto mais acordava, mais calor sentia. Tinha fome, um buraco no estômago. A casa estava calma, não tinha barulho. Percebeu que tinha se acostumado rápido. Acordava e ia para a cozinha. O dia começava ali. Um café. Ela gostava de se preparar para ele. Todo dia diferente.
Café passado, nescafé, nescau. Leite quente, frio, desnatado, semi-desnatado. Mel, geléia, manteiga, margarina, requeijão. Pão de trigo, doce, de fatia, integral ou bolacha. Depois um copo de água. Depois banho.
O chão de taco ligava todas as quatro extremidades do apartamanto. Uma cozinha, um banheiro e uma sala com cama de casal. De um lado a janela inteira de vidro que continuava suja. Ela pensou em limpar quando tinha se mudado. Mas pensava na imperfeição das coisas e preferia deixar a janela de tal jeito que sempre a lembrasse. Abriu a janela e viu a cidade. Lá fora tinha gente trabalhando, dirigindo, almoçando. Tinha ônibus. Tinha dúvidas. Mandou uns emails e tirou o lixo do banheiro.
O chão, o banheiro, a geladeira, o jornal, a roupa e a bota.
Passou os olhos pelo jornal, ligou o rádio, fez a cama que dividia e se vestiu. Passou perfume, calçou o sapato e pôs o colar que combinava. Arrumou a bolsa, deu uma olhada na agenda, pegou o celular e a chave do carro. Fechou a porta de casa.
No carro olhou-se mais uma vez no retrovisor, arrumou os cílios, o rímel tinha borrado. Passou o batom incolor e acelerou.
Foi trabalhar...
(intervalo)