terça-feira, 21 de agosto de 2007

Sabores



Comi alcachofra.
O primeiro grande impacto na city não foi pegar o metrô lá na Barra Funda, confundir os bilhetes de trem com os do metrô e ainda xingar a máquina que recusava o bilhete.
Também não foi minha primeira entrevista de dois minutos numa grande emissora de televisão, muito menos o salão de beleza que cobra quase 100 contos para fazer pé e mão. Péra, eu nem entrei, só vi na vitrine.
Viajei 700 km, pousei em Congonhas e paguei 20 pilas por uma salada na Avenida Paulista, cartão postal da big apple brasileira, com 4 pedaços de alcachofra, 4 fatias de tomate seco, 4 de mussarela de búfala e uma montanha de alface.
Inacreditável. O prato era desproporcional. Ensaiei dez vezes chamar o garçon pedindo o menu outra vez para tentar explicar o prato que se chamava Tricolori e que só tinha alface. Tudo bem, eu comi quase tudo. Até explicar que focinho de porco não é tomada...
Mas voltando a alcachofra. A aparência não é feia. Como eu disse, veio cortada em 4 pedaços. Se juntar tudo forma um gomo verde-claro cheio de várias folhas. No supermercado ela parecia mais bonita do que no meu prato. E o gosto é estranho, nem ruim, nem bom. Estranho. Daqueles que vai demorar até que eu peça um novo.
Assim como a alcachofra as mudanças nem sempre tem gosto de filé mignon, ou do feijão da vó, do carreteiro do pai, do purê da mãe. Gosto que a gente já nasceu sabendo. Gosto do costume, do porto-seguro.
Esses novos pratos tem novos sabores. Alguns eu não vou gostar, outros não vou querer esquecer e outros ainda vou ficar em dúvida. Alcachofra.
São sabores novos. Sabores de desafio, sabor do diferente. Alcachofra. Ainda não consigo definir. Preciso experimentar outro prato, preciso caminhar em outra rua, preciso entrar naquela loja, beber outra coisa, quero conhecer a Liberdade e ganhar aquele emprego.
Gosto de alcachofra.

domingo, 12 de agosto de 2007

Chega pra lá!




Ela veio com duas perguntas:
- Mas existe razão pra tanta dúvida? Será mesmo isso?

Bom, se tivesse não seria ela a interessada em me ouvir nessa altura do campeonato. E se é ou não, não interessa.
Não fazia a menor diferença o que ela achava. Mas o problema é que ela ficou aqui do meu lado.
Foi pouco. Dessa vez foi por bem pouco. Eu já fiquei com aquela respiração difícil... A vontade de argumentar. Soquei tudo pra dentro de novo. Como quase sempre faço. Como quase.

Mas calma, era mais uma.
Elas chegavam assim, a qualquer hora, pra sei lá o quê exatamente, querendo espaço, atenção e principalmente corda. Santa inconveniência!
Elas dependem de mim. Sei disso porque desde que me entendo por gente elas surgem, assim, do nada mesmo. Lógico que não dá pra dizer que é só esse tipinho que me aparece. Existem outras mais interessantes, que de vez em quando dão o ar de sua graça. Eu acho o máximo. Mas só as legais.

E essa tal...
Ainda zanzava por aqui...exatamente por aqui.
Agora há pouco é que foi embora. Coisa de linhas.
Quando ela viu que eu estava quase concluindo, percebeu que não tinha chance. Foi embora com toda sua ignorância e me deixou em paz.
Que não volte mais!
Aqui quem manda sou eu!

quinta-feira, 9 de agosto de 2007

Começo


Eram várias. Passavam deslizando, sem pressa. Flutuavam no papel branco e quase choravam de tanto que estavam desorientadas. No fundo, queriam impressionar. Tinham tamanhos e cores diferentes. Impossível lembrar de quantas eram. Não sei quais tinham resolvido aparecer e talvez por isso, pela surpresa, nenhuma tinha trazido seu significado.
Não construíam uma frase concretamente.
De concreto só tinha o meu desejo.
E elas sabiam.

Flutuar tinha se tornado freqüente nos últimos tempos. Era meu passatempo de algumas noites na última semana. Fazia muito tempo que não acontecia.
Na primeira noite voei num carro com meu pai, minha mãe e minha irmã, de volta aos meus cinco anos de idade, quando era muito comum flutuar da minha cama até o teto.
Depois de novo, em outra noite, voei com um cara e sem muitos detalhes, a proposta dele não me agradou. Desci sozinha, pisei na grama e fui pegar meu carro vermelho.
E a agora essas palavras desacomodadas que flutuavam tristes. O que mais preciso fazer?

A decisão já foi tomada e o desejo enfim realizado.
Um brinde?

Saudade de Tereza

Eu comecei com Tereza. Isso há muitos anos. Eu queria outra coisa. Eu me interessava por carroças que andavam pelas ruas de asfalto. Hoj...