Eu comecei com Tereza. Isso há muitos anos. Eu queria outra
coisa. Eu me interessava por carroças que andavam pelas ruas de asfalto.
Hoje, aposto que elas não existam mais. Mas há muitos anos ainda andavam por lá.
Eu saí andando e tive esse encontro não marcado com Teresa. Foi bem nervoso.
Eu estava com receio de procurar, de encontrar, disso me matar. Mas eu já tinha
encontrado quando dei os passos lá dentro. Não era o que eu queria, mas
aquilo que eu mais temia e precisava. Tereza. Essa história ela me deu e eu
nunca retribuí.
Fiz perguntas erradas com medo de ouvir o certo. Fiz
rodeios, fui tonta, me fiz de fraca, mas ela seria sempre muito mais porque ela
era de verdade. Limpava túmulo de morto. Não escondia seu barraco, nao
escondia sua história, sua família e nem seu trabalho. Mesmo com a sujeira na
porta, mesmo com a estranha vizinhanca, mesmo sem banho, ela não
usava artifícios que eu pudesse ver.
Ela me emprestou sua coragem, ela entregou a vergonha que
tinha vontade de falar. Ela me deu tudo que tinha e eu sou agradecida. Ela me
deu aquilo que eu exatamente precisava. Simplicidade. Eu não
tenho. Sou infelizmente sofisticada e enganada. E o que ela deu, coloquei numa
folha e guardei com vergonha.
